sexta-feira, 19 de junho de 2009

Sala de cinema cheia, debate não tão cheio de gente assim. Na primeira vez que vi o Ensaio sobre a cegueira, fiquei admirada com a adaptação, pois meu sentimento ao final, tanto do livro quanto do filme foi o mesmo. As descrições da cegueira presentes no livro provocam todos os outros sentidos – mas como transformar uma cegueira branca em imagens? Acreditava que isso seria impossível – mas conseguiram. As imagens nebulosas, desfocadas me provocaram as mesmas sensações.
Mas hoje minha reflexão foi diferente: eu não acredito que exista uma cegueira no filme/livro, mas sim uma falta de enxergar. Alguém pode perguntar "e não é a mesma coisa?", mas eu tenho certeza: não. Se uma pessoa perde toda a noite reclamando da falta de luz e perde uma grande oportunidade de contemplar as estrelas, ela é cega?
A partir do momento que deixamos de ver, nos tornamos sujos, mesquinhos, egoístas, animais. Conhecemos o mundo que existe por trás das aparências (mas isso nem sempre agrada). Não é a toa que a única personagem da história que não deixa de ver – a mulher do médico – se revela extremamente humana.
Uma vez me perguntaram se eu escolheria a pílula vermelha ou a azul, e eu respondi que preferia a azul, pois existem muitas coisas podres no mundo que seria melhor não conhecer. Hoje digo exatamente o oposto: acredito com convicção que podemos resgatar nosso lado humano. E que, ainda que olhando tantas coisas ruins tudo pareça cinza, ainda é possível levantar os olhos e encontrar forças na beleza do céu.

1 comentários:

Marcelo Higinio disse...

Depois que a gente assisti pela segunda vez a gente consegue enxergar mais coisas (hehe) nas entrelinhas do filme, por consequência na idéia do Saramago. Tal como você disse, ainda que ficando cego ou tomando a pilula azul você não tenha que ver muito do que acontece, é mantendo-se vidente que podemos resgatar muito da dignidade na sociedade.

É até bem interessante que a mulher do médico é poupada da cegueira mesmo em momentos de plena/extrema exposição, tanto pelas condições físicas como morais. Como se por ela fosse acontecer a redenção, a retomada dos valores e até mesmo da justiça, uma boa contradição já que a vida inteira foi dito ela é cega.