sexta-feira, 19 de junho de 2009

Sala de cinema cheia, debate não tão cheio de gente assim. Na primeira vez que vi o Ensaio sobre a cegueira, fiquei admirada com a adaptação, pois meu sentimento ao final, tanto do livro quanto do filme foi o mesmo. As descrições da cegueira presentes no livro provocam todos os outros sentidos – mas como transformar uma cegueira branca em imagens? Acreditava que isso seria impossível – mas conseguiram. As imagens nebulosas, desfocadas me provocaram as mesmas sensações.
Mas hoje minha reflexão foi diferente: eu não acredito que exista uma cegueira no filme/livro, mas sim uma falta de enxergar. Alguém pode perguntar "e não é a mesma coisa?", mas eu tenho certeza: não. Se uma pessoa perde toda a noite reclamando da falta de luz e perde uma grande oportunidade de contemplar as estrelas, ela é cega?
A partir do momento que deixamos de ver, nos tornamos sujos, mesquinhos, egoístas, animais. Conhecemos o mundo que existe por trás das aparências (mas isso nem sempre agrada). Não é a toa que a única personagem da história que não deixa de ver – a mulher do médico – se revela extremamente humana.
Uma vez me perguntaram se eu escolheria a pílula vermelha ou a azul, e eu respondi que preferia a azul, pois existem muitas coisas podres no mundo que seria melhor não conhecer. Hoje digo exatamente o oposto: acredito com convicção que podemos resgatar nosso lado humano. E que, ainda que olhando tantas coisas ruins tudo pareça cinza, ainda é possível levantar os olhos e encontrar forças na beleza do céu.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Era a comemoração de mais um dia festivo, e já era hora da costumeira troca de presentes. Depois das meias e do porta-retrato da última festa, combinaram que os presentes deveriam ser surpreendentes – mas não caros, pois a viagem do próximo mês não deixava espaço para grandes gastos.
Os embrulhos foram retirados de seus esconderijos, concretizando o costumeiro ritual de adiar a surpresa para que fique mais emocionante. Ela pediu desculpas por entregar seu presente em uma embalagem de pão, envolto em uma sacola plástica de mercado, porque não teve tempo, e não sabia como fazer uma embalagem bonita. Ele apareceu com um papel dourado, com um bonito laço vermelho. Ela ganhou um chocolate, ele, um limão.
As reações foram rápidas, não foi possível esconder o desapontamento. Enquanto ele, querendo agradá-la, comprara o chocolate da marca mais fina, ela lhe dera um limão, ácido, sem nenhum romantismo. Ela, na tentativa de desafiá-lo, dera um limão, pois acreditava que transformar o limão em algo melhor já seria seu presente, mas ganhara um chocolate – felicidade imediata, que resulta apenas em espinhas e gordura.
Depois de um tempo de silêncio constrangedor, os dois reassumiram sua postura e agradeceram cordialmente. A despedida foi breve, e, depois do adeus, a solidão. Cada qual em seu canto, a reflexão era similar: ele queria o chocolate; ela, o limão.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Inesperadamente apareceu um novo morador aqui em casa. Verde, de olhos grandes, cara de mau. Um ET? Não, um grilo. Daqueles grilos tímidos, que esperam a casa ficar toda em silêncio para começar a cantar e, quando percebem que tem platéia, se calam.
Eu acredito que a melodia dos grilos reflete nosso estado de espírito. Numa noite só, o que existe de mais solitário que ficar ouvindo o cri-cri no escuro?
Hoje, para mim, essa música lembra infância. Infância das amarelinhas iluminadas pela luz amarelada do poste, infância dos acampamentos que sempre terminaram em riso, além de todo aprendizado, infância dos jogos de bola na quadra enquanto os adultos discutem metas e nosso futuro.
Amanhã, com certeza, alguém que não teve um dia bom vai expulsar nosso ilustre visitante, jurando de pé junto que seu barulho é irritante. Enquanto isso, eu aproveito lembrando... Lembrando.